sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

CIÊNCIA DÁ PASSOS DE GIGANTE: AS DEZ MAIORES DESCOBERTAS DE 2013

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Plano de Mata Atlântica será lançado até fevereiro

BLOG O MURAL:

A Sema mapeou 2.537 fragmentos dos mais significativos do município


Para intensificar ações de preservação e poder receber recursos federais específicos do bioma, a Secretaria do Meio Ambiente (Sema) de Sorocaba deve lançar até fevereiro deste ano o Plano Municipal de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica. O documento traz um mapeamento com 2.537 fragmentos dos mais significativos do município, para que este ano sejam alvo de iniciativas como criação de parques e negociação com particulares para torná-los reservas protegidas.

A titular da Sema, Jussara de Lima Carvalho, cita que a cidade possui menos de 17% dos seus 449,8 km2 de área compostos por vegetação natural, sendo 1,5% do território de áreas protegidas. Essa vegetação é composta principalmente por dois biomas, já que Sorocaba está em uma região de transição entre a Mata Atlântica e o Cerrado. "Queremos ser o primeiro município a implantar o Plano Municipal de Mata Atlântica", diz Jussara, que complementa informando que o levantamento do plano foi feito em parceria com universidades do município, por meio de pesquisas científicas. 

Ela comenta que não há um número exato de área total dessa vegetação, por ser muito fragmentada, mas acredita que a maior parte desses locais são de propriedade particular. Nessas áreas a Prefeitura deve negociar com os donos a criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), que ainda não existem na cidade e serão feitas por meio de um convênio com o governo do Estado. 

Já as áreas públicas serão analisadas, de acordo com Jussara, para que sejam protegidas por meio da criação de parques, à semelhança do Parque Municipal Corredores de Biodiversidade. No início eles não devem ser abertos ao público, mas a Sema já prevê visitas monitoradas, com trilhas pela mata. 

Unidades de preservação 

Dois desses fragmentos de Mata Atlântica, já preservados, são a Unidade de Preservação Governador Mário Covas, com 500 mil metros quadrados (50 hectares) no bairro Cajuru, e o Parque Natural dos Esportes Chico Mendes, com 155,6 mil metros quadrados (15,5 hectares), no Alto da Boa Vista. Jussara cita que esses dois parques foram considerados, respectivamente, a primeira e segunda áreas mais importantes da cidade do ponto de vista ecológico, em estudo feito pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), campus Sorocaba. 

Por meio desse mapeamento da vegetação da Mata Atlântica, também é possível identificar quais são os fragmentos mais vulneráveis. "Uma das técnicas para essa verificação é o formato das áreas. Se o fragmento for circular, é mais preservado, já se o formato for mais alongado, está mais vulnerável", afirma a secretária. Antes de ser lançado, o plano municipal passará por aprovação do Conselho Municipal de Desenvolvimento do Meio Ambiente (Condema), sem necessidade de aprovação da Câmara de Vereadores.

Classes dos fragmentos de Mata Atlântica identificados pelo plano municipal :

Tamanho


Quantidade de fragmentos
0 a 5 hectares (ha)*
2.275


5 a 20 ha


200
20 a 60 ha


42
60 a 120 ha


13
120 a 315ha


7
*1 hectare corresponde a 10 mil metros quadrados

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O desabafo de uma pré-vestibular cotista

BLOG O MURAL:  Por: 
vestibular

Publicado originalmente no Sobre Aquilo que Você Se Recusa a Pensar.

Vou começar o texto com algumas informações preliminares. Caso você não goste delas, se sinta ofendido, não se interesse pelo texto ou coisa parecida, por favor, não perca seu tempo com essa leitura e muito menos com comentários agressivos. Obrigada.
  1. Escrevo aqui com o intuito de descrever situações vividas por mim, portanto, não incluo aqui a voz de ninguém que não seja eu mesma.
  2. Esse texto não pretende tratar das cotas raciais, mas não porque eu não concorde com elas (eu concordo) e sim porque não sou negra, mulata, parda, indígena, afrodescendente ou amarela. Assim sendo, nunca sofri preconceito racial de nenhum tipo e, portanto, não tenho condições de exprimir com fidelidade os sentimentos de um pré-vestibular que tenha passado por isso.
Presto Medicina. Estudei na ETEC Parque da Juventude durante meu ensino médio. No meu terceiro ano (ano passado), estudava de manhã no colégio e fazia cursinho no Anglo Tamandaré à tarde. Estudei de domingo a domingo. Acordava às 6h da manhã, assistia a aulas no colégio até 12h30, assistia a aulas no Anglo das 14h20 até as 18h20. Em casa, estudava da hora que eu chegava (19h) até meia noite, as vezes uma hora da manhã. Todos os dias.
De sábado estudava. De domingo estudava. Jantava ao mesmo tempo que estudava. Estudava no ponto de ônibus. Estudava em visitas à casa dos meus avós. Estudava durante a aula de Educação Física enquanto meus colegas jogavam futebol. Tenho o orgulho de dizer que fiz todas as minhas Tarefas Mínimas e Complementares. Cabulei apenas algumas das últimas aulas de Texto do cursinho, em dezembro, quando já sabia que não havia passado em nenhuma faculdade. Fui em todas as aulas de inglês. Fazia minhas TMs e TCs durante as aulas do colégio, enquanto o professor dava aula de outra matéria.
Só que eu não sou um ser perfeito (muito longe disso), então eu dormia em algumas aulas no colégio também. E todas essas coisas que eu fazia me prejudicaram de inúmeras formas: Sei que muitos professores se decepcionavam comigo por eu estar dormindo ou fazendo outras coisas enquanto eles davam aulas no colégio e que muitos amigos se ressentiam pelo fato de que eu não lhes dava atenção. Tive problemas com dor de cabeça durante o ano por conta de falta de sono, emagreci quatro quilos, briguei com meus pais inúmeras vezes, deixei de falar com meus avós o quanto deveria, deixei de conversar com meus irmãos e com o meu primo (que é como um irmão pra mim também), deixei de sair com meu namorado diversas vezes, impedi que meus pais fossem à praia de fins de semana porque eu precisava estudar.
Resumo? Sufoquei minha vida. De verdade. Comecei a ser mais amarga ou agressiva com pessoas que não mereciam minha agressividade e tudo isso porque eu via que todo meu esforço, minha luta, minha loucura não levava a lugar nenhum, porque eu corria em círculos, sem saber a diferença entre velocidade angular e escalar, porque não entendia absolutamente nada de elétrica, porque não conseguia resolver exercícios de estequiometria, porque não fazia a mínima idéia da diferença entre pretérito perfeito e imperfeito, mesmo depois de fazer todos os exercícios, todas as tarefas, todas as leituras (Conhece os intocáveis? Eu li todos eles. TODOS.)
Resultado? Ah, tirei 58 na Fuvest. Uma nota incrivelmente decepcionante e insuficiente pra quem presta medicina. Me revoltei com a minha escola, que eu tinha amado tanto durante meu primeiro e segundo ano pois ela havia me dado amigos, professores maravilhosos e uma liberdade fantástica, porque quando resolvi que ia estudar lá (e tive que passar em um Vestibulinho pra isso) fui achando que eu estaria bem preparada pro Vestibular, porque vende-se uma ideia de que essas escolas são tão boas quanto escolas particulares, no âmbito de preparação para os exames.
E é claro, me arrependo muito dessa revolta, porque grande parte do que eu sou hoje se deve à experiência maravilhosa que tive estudando no PJ.
Mas essa história vendida é falsa. Eu não posso de maneira alguma comparar o ensino que eu tive com o ensino que um aluno do Dante, Bandeirantes, Etapa, Mendel, Arquidiocesano ou de qualquer uma dessas “escolas-celebridades”.
Escolas que eu nunca poderia ter estudado, pois para pagá-las seria necessário que meus irmãos não estudassem ou que minha família vivesse de favor na casa de alguém. E não porque eu sou pobre, miserável. Eu não sou. Eu tenho uma vida ótima. Mas eu não tenho quase três mil reais para gastar por mês em um colégio. Tenho o dinheiro da mensalidade do Anglo, que com o meu desconto, não paga nenhum colégio de ensino médio minimamente respeitável.
E esse texto é pra você, aluno de um desses lugares (que depois foi fazer cursinho no Anglo), porque você que é o verdadeiro concorrente de medicina. Você que só está no seu primeiro ano de cursinho, que fez intercâmbio, viajou com a família pra Europa, que vai ganhar um carro do papai quando entrar na faculdade, que não estudou no seu terceiro ano porque estava preocupado com a sua viagem para Porto Seguro. Você que reclama dos professores do Anglo porque seus professores do colégio ficavam fazendo gracinha na aula e você acha que cursinho tem que ser engraçado.
Você que não faz nem as Tarefas Mínimas e que não comparece aos simulados de final de semana. Você que estuda 3 horas por dia e sai toda sexta feira com seu namorado. Você que cabula aula de química porque sabe tudo de equilíbrio químico e acha mais interessante sair com os amigos pra ir no bar porque, afinal de contas, você precisa descansar. Você que não assiste aula de redação porque sua escola te deu uma aula melhor do que a do Anglo. Você que não deixou de conversar com seus pais, seus avós, seus amigos…
Você que não sufocou sua vida com um monte de estudo louco. Você, caro colega, que nesse seu primeiro ano de cursinho estudou de maneira “light”, que não sacrificou sua saúde e que tirou muito mais do que eu no meu primeiro ano de Fuvest.
Você que tirou 69 e está revoltado porque os alunos de escola pública, como eu, se tirassem 69 teriam uma esmola de cota que os colocariam a sua frente. Alunos de escola pública que estudaram tanto quanto eu.
Alunos que, como eu, ficaram quase o segundo ano inteiro sem ter aula de física, mais de 4 meses sem ter aula de espanhol. Alunos que, como meus colegas que inauguraram a ETEC Parque da Juventude, receberam do grandiosíssimo governador do Estado de São Paulo uma escola sem ventiladores ou sem instrumentos de laboratório, que serviu como propaganda política por diversos anos, sendo que todos os equipamentos necessários para o bom funcionamento da escola foram conseguidos com o trabalho duro da Associação de Pais e Mestres, sem o auxílio desse mesmo “governo” que nos dá um bônus nos vestibulares e que permite que nossos professores, tão esforçados e trabalhadores, ganhem a fortuna de 10 reais a aula/hora.
Você, respeitoso colega, provavelmente teve aulas de ótica, de ondulatória, de eletromagnetismo, de embriologia, de botânica, de filosofia, de história do brasil pós República Velha, de geografia física da Europa, dos Estados Unidos e da China e tantas outras aulas essenciais para qualquer um que quer prestar vestibular. Eu não tive. Meus colegas não tiveram. Os seus livros são comprados das melhores editoras, nos melhores lugares. Os meus são fornecidos pelo governo, e não posso negar que muitos são excelentes, mas não posso deixar de dizer que muitos são péssimos.
E você, amável colega, fluente em inglês, civilizado, viajado, carregando seu Iphone no bolso por ai, você é o primeiro a cuspir que é contra as cotas de escolaridade pública. Você é o primeiro a dizer que é um “absurdo o cara sair na frente só porque ele estudou em uma escola pública”, você que tem a cara de pau de dizer que “as pessoas estudam nessas escolas só para ganhar cota” e que “essas pessoas roubam nossas vagas, destroem os nossos sonhos”. Você, meu amigo, deve começar a pensar melhor no que diz.
E eu estou falando tudo isso de uma ETEC, que as pessoas tem que realizar prova pra entrar. Eu estou digitando isso do meu computador, na minha casa, confortável na minha cadeira. Eu sou privilegiada. Não como você, mas sim, sou privilegiada. Sou privilegiada porque meus professores eram interessados, bem formados. Tive uma professora de biologia no primeiro ano que deixou de trabalhar na área de pesquisa para dar aulas e que dá aula no Bandeirantes, professora que me ensinou citologia como ninguém. Tive professores de física e matemática que não desistiram de tentar dar aula, mesmo quando a classe se mostrava visivelmente desinteressada.
Tive o privilégio de ter redações corrigidas por uma professora que já corrigiu redações no Anglo. Tive aulas de Projeto Técnico Científico, que me ensinaram o que era uma pesquisa científica e que me será indiscutivelmente importantíssimo na minha vida acadêmica. E essa mesma professora, que me ensinou tudo isso tão bem, conseguiu me fazer entender a luta pela terra, a cartografia e os horizontes do solo de maneira fantástica. Todos esses professores ganham 10 reais por aula. Dez reais é quanto você gasta na cantina do Anglo com seu chá e seu croassaint.
Essa minha escola pública me levou até a Unicamp de Portas Abertas e lutava pra tentar nos ensinar o máximo que podia. Esse minha escola aprovou inúmeros colegas meus na Unesp, na Usp e na Unicamp. E mesmo assim, querido amigo, colegas que tiveram que ralar muito mais do que você pra tirar uma nota menor do que a que você tirou na sua primeira Fuvest, no seu terceiro ano de colegial.
Agora, pense nas outras escolas. É, aquelas, abandonadas por ai. Aquelas na periferia. Aquelas onde não só os ventiladores faltam, mas os livros, as carteiras e os banheiros também. Aquelas nas quais os alunos não tem pai, não tem mãe. Não tem o que comer na janta. Não tem roupas para usar pra ir à escola. Aquelas que os professores ganham menos de 10 reais por aula. Aquelas em que muitos alunos não sabem o que é uma Fuvest.
Pense nos adolescentes da nossa idade, que foram ao posto de saúde e conheceram um médico legal e sonham em ser médicos. Essas pessoas têm menos oportunidades que eu e muito menos que você. Essas pessoas não roubam suas vagas. Essas pessoas muitas vezes não conseguem tirar a nota considerada mínima pela Fuvest. Essas pessoas não tem condições de estudar no Anglo Tamandaré. Pela cabeça dessas pessoas nem passa a idéia de ir estudar no exterior porque “Faculdade no Brasil tá difícil”.
Eles, eu, nós, os cotistas em geral, estamos começando a corrida muito depois de você. Estamos inacreditavelmente atrasados. Não estamos pegando um “boost” na sua frente. Não estamos na sua frente. Talvez nunca estejamos. Você consegue entender isso? Estamos atrás, quilómetros atrás, descalços, na chuva, sem protetor solar, enquanto você corre em uma bicicleta de marcha, com seu boné importado.­
Então, da próxima vez que você decidir cacarejar sobre a injustiça das cotas, lembre-se disso e cacareje sobre a injustiça que sai de seus lábios.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Segundo mais visitado do Brasil, até Parque Nacional do Iguaçu (PR) está ameaçado

BLOG O MURAL: O ISA começa a publicar hoje uma série de três reportagens sobre o Parque Nacional do Iguaçu e o polêmico projeto que pretende reabrir uma estrada em seu interior, colocando em risco essa área fundamental para a conservação da Mata Atlântica
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O Parque Nacional (Parna) do Iguaçu é o segundo mais visitado do País, com mais de 1,5 milhão de visitantes ou 28% do total neste tipo de unidade de conservação (UC), em 2012. Ele só perde para o Parna da Tijuca (RJ), onde está o Cristo Redentor, mais famoso cartão postal do Brasil, com 2,5 milhões de visitantes.
O Parna do Iguaçu também é considerado Patrimônio Natural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para Educação e Cultura (Unesco) e abriga as Cataratas do Iguaçu, escolhidas recentemente uma das sete maravilhas da natureza. Por causa disso, Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, na fronteira com a Argentina, onde está localizada o acesso ao parque, é o segundo destino mais procurado por turistas estrangeiros no Brasil, perdendo apenas para o Rio de Janeiro nesse quesito.
O elevado número de visitantes tem permitido uma boa arrecadação e a gestão da área é considerada um exemplo, executada por meio da concessão de uma série de serviços turísticos que geram emprego e renda para a região.
Na Região Sul, o parque é o último refúgio de onças pintadas e o maior remanescente de Mata Atlântica, bioma mais devastado do País. É também o mais significativo fragmento do que restou de uma das fitofisionomias mais ameaçadas desse bioma: a Mata Atlântica do Interior ou Floresta Estacional Semidecídua.
Nada disso, no entanto, está sendo suficiente para manter a salvo esse patrimônio nacional e internacional, que completa 75 anos no dia 10/1. Como se não bastassem os caçadores, palmiteiros ilegais e a poluição do Rio Iguaçu, que corta a UC e onde estão localizadas as cataratas, uma polêmica proposta em tramitação no Congresso é a mais recente ameaça à sua integridade. O Projeto de Lei (PLC) 61/2013, do deputado Assis do Couto (PT-PR), pretende reabrir a Estrada do Colono, via de 18 quilômetros que cortava o parque até 2003, quando foi fechada pela Justiça (veja mapa).
Depois de aprovado na Câmara sem ir a plenário (saiba mais), a proposta está agora na Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado. Se não for alterada, pode ser aprovada mais uma vez sem ir ao plenário e seguir direto para sanção presidencial.
O agravante é que o projeto não ameaça apenas o Parna do Iguaçu. Na tramitação na Câmara, o relator Nelson Padovani (PSC-PR) introduziu uma emenda que muda a Lei 9.985/2000, do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), para criar a figura da “estrada-parque”, o que pode impactar o conjunto das UCs brasileiras.
Conveniências políticas
Couto afirma que as “estradas-parque” vão estimular o turismo ambiental no Parna do Iguaçu e em todo País. Ambientalistas, pesquisadores, a administração da área, a prefeitura de Foz do Iguaçu e o governo federal são contra. A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, já disse que não concorda com o projeto (veja aqui).
Os argumentos para defender a reabertura da Estrada do Colono vêm mudando ao longo dos anos em função das conveniências políticas. Primeiro, a rodovia era considerada uma forma de reduzir distâncias e custos para escoamento da produção agropecuária e o transporte de passageiros entre Capanema e a BR-277, que liga Foz do Iguaçu a Cascavel. Sem a via, é preciso dar uma volta de 100 quilômetros para ir de um ponto a outro. O argumento era tão frágil diante da importância de conservar-se o maciço florestal representado pelo parque que a Justiça Federal determinou seu fechamento definitivo em 2003. A ideia de uma “estrada-parque” pretende contornar esse histórico de dificuldades.
Couto afirma ainda que a via, aberta em 1954, tem importância cultural, pois teria servido para a colonização da região por imigrantes vindos do Rio Grande do Sul, apesar de sempre ter sido ilegal, já que o Parna do Iguaçu foi criado em 1939.
O diretor de Políticas Públicas do SOS Mata Atlântica, Mário Mantovani, diz que o projeto estaria vinculado à pré-candidatura da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, ao governo do Paraná. “A candidata ao governo do estado, para poder ter o apoio do setor rural da região, colocou a estrada como uma moeda de troca”, critica.
“Não somos favoráveis que essa estrada venha a ser aberta sob nenhuma forma. Nem que fosse sob uma estrutura de turismo, o que também levaria impactos para o parque”, diz Jorge Luiz Pegoraro, chefe do Parna.
Risco para segurança das fronteiras
A Polícia Federal já alertou sobre dificuldades que a reabertura da estrada colocaria à fiscalização da região. Ela “seria mais um complicador no que se refere ao controle de nossas fronteiras”, afirma um ofício da corporação, de 2012. “Não tenho nenhuma dúvida de que essa estrada reaberta fará com que drogas e armas cheguem muito mais rapidamente ao sudoeste do Paraná”, afirma a deputada federal Rosane Ferreira (PV-PR), uma das principais opositoras ao projeto no Congresso (saiba mais).
“A estrada vai diminuir os crimes que acontecem hoje na região”, contrapõe Assis do Couto. Ele acredita que sua proposta vai favorecer o controle de ilícitos ambientais e comuns, ao contrário do que dizem ambientalistas, técnicos e a polícia. O deputado afirma que as salvaguardas incluídas em seu projeto, como a instalação de guaritas e o fechamento da via à noite, permitirão sua fiscalização eficiente (leia o projeto). O deputado aposta que a circulação de pessoas na estrada representaria uma forma de “controle social” da criminalidade.
Oswaldo Braga de Souza
ISA

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Os 50 anos do golpe: o que faremos sobre isso em 2014?


jango
BLOG O MURAL:  Via blog do tijolaço; por Miguel do Rosário: 
Em 2014, o Brasil viverá a mais dolorosa efeméride de sua história: 50 anos do golpe de Estado.
O que está sendo preparado pelo governo, pelos partidos, pelas organizações civis e pela mídia para que o passado não seja esquecido?
A coincidência com ano eleitoral, Copa do Mundo, e prováveis protestos de rua, nos dá a chance de forçarmos o Brasil a fazer o que até hoje nunca fez: politizar o debate sobre o golpe de 64. Por que ele aconteceu? Quem se beneficiou? Quem são os herdeiros do golpe?
Seria um belíssimo presente à democracia brasileira, por exemplo, se a Lei da Anistia fosse revista. Não para prender velhinhos, mas para darmos uma satisfação política a nós mesmos, enquanto povo.
Não se anistia tortura. Não se anistia golpe.
Sobretudo, é preciso lembrar à sociedade que o que vivemos não foi nenhuma “ditabranda”. Vivemos um período de ruptura democrática, truculento e sinistro, que abortou o sonho de milhões de brasileiros. O golpe serviu para ampliar a desigualdade de renda, achatar o salário dos trabalhadores, e esmagar as esperanças de setores organizados de construir um país mais justo.
Não há nada de brando no esmagamento do sonho de centenas de milhões de cidadãos e na violação da normalidade democrática, com a instalação de um regime militar de exceção que, paulatinamente, aniquilou todas as liberdades no país.
Não há nada de brando na ruptura brutal de toda uma série de estudos e pesquisas acadêmicas e científicas em curso no país, nas universidades, quase todas abandonadas por causa de uma repressão estúpida e paranóica.
O Brasil, especialmente a nossa juventude, precisa ser melhor informado sobre o que aconteceu. A ditadura trouxe corrupção, miséria e degradação institucional. A origem do sucateamento dos serviços públicos está na ditadura. O problema da corrupção política também tem raízes no período de exceção, porque era um tempo sem liberdade de imprensa, sem instituições de controle e com chefes políticos exercendo cargos administrativos importantes de maneira quase totalitária. Quem ousaria acusar o diretor de uma estatal de corrupção, sendo o mesmo um coronel ou general com poder de mandar prender o acusador por “subversão”?
Precisamos conhecer melhor a história da construção do golpe. Como ele foi gestado, como foi a campanha midiática que o preparou? As passeatas que antecederam o golpe também merecem ser objeto de mais estudo, até porque a mídia, a mesma mídia que apoiou o golpe, prossegue até hoje tentando organizar protestos “espontâneos” para derrubar forças populares.

sábado, 28 de dezembro de 2013

“Quanto menos desejos você tem, mais perto está dos deuses”: a atualidade de Sócrates


A Morte de Sócrates, por Jacques-Louis David
BLOG O MURAL: Via Diário do Centro do Mundo 
Sócrates é um formidável remédio contra a presunção. Quando você está se achando o rei do universo, quando você olha para o espelho e admira apaixonadamente o que vê, quando você começa a acreditar que é uma prova viva da existência de Deus, bem, é tempo de pensar em Sócrates. Maior de todos os filósofos, grande mestre de gênios como Platão e Aristóteles, ídolo de todos os pensadores relevantes que vieram depois dele pelos séculos afora, Sócrates pronunciou a maior frase contra a arrogância da história da humanidade: “Tudo o que sei é que nada sei”.
Sócrates (470-399 a.C.) mudou a história da filosofia. Deu a ela um inédito caráter prático, moral e ético. Com ele a filosofia se transformou como que num manual para tornar melhor a vida de todos nós. Para nos ajudar a enfrentar as adversidades. Para nos aprimorarmos interiormente. Pensador nenhum se igualou a ele, e no entanto Sócrates jamais escreveu um único livro. Suas idéias e atitudes foram transmitidas à humanidade sobretudo pelas obras de Platão, seu discípulo. Sócrates é o personagem principal dos textos de Platão (428-348 a.C.).
Ele reuniu um número extraordinário de virtudes. Tinha uma vida simples. “Quanto menos desejos você tem, mais perto está dos deuses”, disse ele. Sêneca, o estóico romano, escreveu com reverência que Sócrates não se deixava perturbar pelos bens materiais: desfrutava deles se os tinha. Abstinha-se deles sem sofrimento se os perdia. Foi corajoso na vida e na morte. Combateu em algumas guerras de Atenas, a cidade que o fez ser o gigante que foi e depois o matou. Recebeu condecoração por bravura. Há registros de resistência invulgar em seus dias de guerreiro: andava de pés descalços e sem casaco sob temperaturas baixíssimas.
Tinha além do mais senso de humor. “Case-se”, recomendava ele a todos. “Ou você encontra uma boa mulher e vira um homem feliz ou acha uma megera e se transforma num filósofo”. Xantipa, sua mulher, era reconhecidamente insuportável. Com ela teve três filhos.
Na maior parte da vida de Sócrates, Atenas estava em seus dias de esplendor. A Guerra do Peloponeso, em que Atenas foi derrotada por Esparta, selou a sorte de Sócrates. Atordoada, humilhada, a cidade procurou culpados por sua derrocada. Sócrates foi acusado de corromper a juventude com suas idéias. Um tribunal condenou-o a tomar cicuta. Seus discípulos armaram uma fuga, mas Sócrates recusou. Ele agiria como um covarde, e então seu exemplo não teria valor para a posteridade. Para ser Sócrates ele sabia que tinha que pegar o copo que seu carrasco lhe passaria e tragar seu conteúdo com gloriosa tranqüilidade.
A morte de Sócrates está registrada num clássico da literatura universal: Fedon, de Platão. Sócrates consolou os discípulos, devastados. Lembrou a um deles que tinha uma dívida que devia ser paga. Pediu instruções ao homem incumbido de dar-lhe veneno, para evitar problemas na execução. Pronunciou, prestes a tomar a cicuta, palavras que o jovem Platão tornaria eternas: “Chegou a hora de partir, vocês para a vida, eu para a morte. Qual dos dois destinos é melhor, só os deuses sabem”.
Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.